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Tsipras: “Ainda não tive oportunidade para governar”

Alexis Tsipras na entrevista à Alpha TV

Na primeira entrevista após a demissão ao governo, Tsipras deixou clara a sua recusa em aliar-se à Nova Democracia, PASOK e Potami, caso vença as eleições. Para o primeiro-ministro demissionário, o dracma nunca foi uma escolha do Syriza e as medidas previstas no atual memorando significam menos austeridade que dois anteriores.


“A 25 de janeiro o povo deu-nos um mandato para as negociações difíceis. Depois de 12 de julho, não tínhamos o direito de continuar com esse mandato. Por isso peço um novo mandato para continuar” disse o primeiro ministro demissionário na entrevista à estação televisiva Alpha.

“Ainda não tive oportunidade para governar, tanto eu como o meu governo fomos absorvidos pelas negociações e a asfixia económica” dos últimos sete meses, disse o líder do Syriza. Boa parte da entrevista serviu para justificar a assinatura do acordo de 12 de julho em Bruxelas, com Tsipras a declarar o seu orgulho “por ter decidido não levar o povo grego em direção ao desastre do Grexit”.

“Ao fim das 17 horas da cimeira, podia ter seguido o meu coração e vir-me embora como um herói por alguns momentos. Mas no dia seguinte enfrentaria o colapso do sistema bancário e, quem sabe, uma guerra civil no país”, prosseguiu o primeiro-ministro demissionário.

Tsipras prometeu “implementar o memorando com o objetivo de nos libertarmos dele assim que pudermos e ao mesmo tempo aplicar medidas alternativas que suavizem o seu impacto”. Ainda assim, comparou o valor das medidas previstas nos três memorandos impostos ao país para concluir que o atual é o menos austeritário:

“O primeiro memorando incluiu 40 mil milhões em medidas, 17 mil milhões por ano. O segundo memorando tinha 25 mil milhões em medidas, 10 mil milhões por ano. A proposta de Juncker incluía 8 mil milhões em medidas, ou 5.3 mil milhões por ano. O atual memorando tem 10 mil milhões de medidas, o que significa 2.9 mil milhões por ano”, explicou Alexis Tsipras.

“Quem votou OXI não queria voltar ao dracma”

Alexis Tsipras referiu-se ainda ao referendo e à contradição que lhe apontam por ter transformado o “Não” ao acordo num “Sim” a um acordo igual ou pior. “O Não a um mau acordo transformou-se num Sim a um acordo que abre perspetivas de crescimento”, contrapôs Tsipras, reconhecendo que “o Não de 5 de julho pode levar a recuos temporários mas ficará para sempre na história”.

“Acho que entre os que votaram Não havia quem quisesse o Grexit, mas são uma minoria. O povo grego queria um acordo, mas não uma humilhação”, acrescentou Tsipras, garantindo que “o regresso ao dracma nunca foi uma opção nem para mim nem para o Syriza. Ele tornou-se uma opção não para os defensores da mudança, mas para os círculos mais conservadores na Europa”.

“Varoufakis já disse muita coisa e o seu contrário”

Respondendo a uma questão sobre as críticas de Varoufakis ao memorando depois de ter dito que 70% das propostas dos credores eram aceitáveis, Tsipras reconheceu que “Varoufakis já disse muita coisa e o seu contrário”. Mas apesar do ex-ministro das Finanças ter dado “um grande impulso ao novo governo”, a partir de certa altura os seus interlocutores nas negociações “deixaram de o ouvir”, afirmou.

Recapitulando a estratégia negocial do governo, Tsipras voltou a repetir o que considera terem sido os principais erros: “Sobrestimámos o poder da justiça e subestimámos o poder do dinheiro e dos bancos. Julgámos que haveria um efeito dominó que acabou por não acontecer” e “não previmos a magnitude da reação dos círculos europeus mais conservadores”, lamentou, acrescentando que embora soubesse da possibilidade de imposição de controlo de capitais, nunca acreditou que seria necessário fazê-lo.

No entanto, o primeiro-ministro demissionário destaca aspetos positivos do processo: “Ajudámos a que haja uma nova divisão da Europa entre as forças progressistas e conservadoras e criámos oportunidades para novas alianças”.

“A Grécia não vai sair da crise sem mudar-se a si própria”

“O país precisa de crescimento e não de mais austeridade. É por isso que precisa do “pacote Juncker”, bem como outras formas de ajuda”, referiu ainda Alexis Tsipras, sublinhando a necessidade de reformas para travar a corrupção e a burocracia no Estado grego.

“Perdemos a geração dos 20 anos por causa dos memorandos. A minha esperança é assegurar que as crianças poderão acabar os estudos e ficar no país”, referiu. No capítulo das privatizações, Tsipras garante que “o novo fundo de privatização permite-nos usar metade da receita para a dívida e a outra metade para o desenvolvimento”.

Quanto à concessão dos 14 aeroportos regionais a uma empresa alemã, que o governo pretende concluir até março de 2016, Tsipras diz que esse foi um compromisso do acordo de 12 de julho. “Mas não concordámos com a sua lógica”, acrescentou.

“Não faremos alianças com partidos do velho sistema”

Quanto ao desfecho eleitoral das próximas legislativas, Alexis Tsipras prometeu que mesmo com maioria absoluta, o Syriza procurará coligar-se com outras forças. Mas em seguida excluiu dessa eventual aliança a Nova Democracia, o PASOK e o Potami: “Se tivermos maioria absoluta, procuraremos acordos com outras forças, mas não vamos pôr no governo os que lá estiveram durante tantos anos.

Sobre a cisão da ala esquerda do Syriza, Tsipras afirmou que “os desacordos políticos são normais e aceitáveis, e todos seremos julgados pelas nossas propostas políticas”. A cisão no partido “é um resultado infeliz, mas não foi inesperado”, já que era público que havia opiniões diferentes sobre a condução do país.

No entanto, Tsipras afirmou-se desiludido com os seus ex-camaradas de partido que há poucas semanas temiam o colapso dos bancos e agora o criticam. Questionado sobre se Zoe Konstantopoulou teria sido uma má escolha para presidente do Parlamento, o primeiro-ministro demissionário foi lacónico: “Não quero comentar. Seremos todos julgados pelas nossas escolhas”.

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