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6 Dezembro: história de um dia de confrontos contra a violência policial

6 de dezembro em Atenas. Foto Angel Ballesteros/Twitter

Nos últimos sete anos, o dia 6 de Dezembro tem sido marcado por intensos confrontos entre anarquistas e as forças policiais. A origem dos protestos foi a morte de Alexandros Grigoropoulos, um jovem de 16 anos brutalmente assassinado por dois agentes policiais em 2008. Nos confrontos da madrugada deste domingo, um turista português foi apanhado de surpresa e acabou ferido quando atravessava o campo de batalha ao volante de um automóvel (ver vídeos).


Artigo de Ricardo Cabral Fernandes, em Salónica.


 

A História contemporânea grega possui uma cultura autoritária muito forte, que advém da brutal ditadura do general Ioannis Metaxas (1936-41), da ocupação nazi e do colaboracionismo de certos sectores da direita grega com os ocupantes (1941-44) e, por fim, da ditadura dos Coronéis (1967-74). Ora, esta cultura originou dialeticamente um intenso movimento anti-autoritário, principalmente a partir de 1973 com a revolta dos estudantes do Politécnico de Atenas. Um dos factores que fortaleceu o movimento foi precisamente a frequente brutalidade policial. Mesmo depois da queda da Ditadura dos Coronéis um dos requisitos para a candidatura e entrada nas forças de segurança era a assinatura de um documento em que se repudiava qualquer ideologia ou comportamento conotado com a Esquerda. Em consequência, as fileiras das forças policiais possuem um número muito significativo de elementos que pertencem ideologicamente à extrema e direita-radical. O confronto entre os vários grupos da Esquerda e as forças policiais baseia-se tanto na luta contra a repressão do Estado grego como também na luta contra os fascistas presentes nas suas fileiras.

Os confrontos no dia 6 de Dezembro têm a sua origem no assassinato de Alexandros Grigoropulos, um jovem anarquista de 15 anos, por dois agentes da polícia em 2008. Pelas 9 horas da manhã, Grigoropulos e Nikos Romanos, então com 16 anos, encontravam-se sentados num esquina no bairro de Exarcheia, com forte implantação anarquista, quando trocaram algumas palavras com dois polícias que passavam num carro patrulha. Nada aconteceu para além das altercações. No entanto, algum tempo depois esses dois polícias, Epaminondas Korkoneas e Vasilis Saraliotis, regressaram a pé até onde os dois jovens se encontravam. De repente e sem qualquer tipo de acto violento por parte dos jovens, Korkoneas sacou da arma de serviço e disparou à queima-roupa contra Grigoropoulos, que morreu no local poucos minutos depois. Nikos Romanos viu o seu amigo morrer-lhe nos braços enquanto gritava por ajuda. Os dois polícias foram-se embora e quando chegaram à esquadra relataram que tinham sido atacados por anarquistas, mas sem referirem o uso da arma de serviço por Korkoneas.

Rapidamente a palavra do assassinato de Grigoropoulos se espalhou e centenas de jovens tomaram a rua, incendiando caixotes do lixo, carros e paragens de autocarro. As fileiras dos manifestantes continuaram a aumentar e os protestos violentos ultrapassaram o bairro anarquista de Exarcheia, ocorrendo inúmeros confrontos com as unidades de intervenção da polícia. Perspectivando que Korkoneas sairia impune, tal como aconteceu em situações semelhantes de enorme violência policial, os protestos expandiram-se a todo o país com a realização de concentrações contra a violência policial, seguidos de confrontos com as forças de segurança. Todo o país ficou numa enorme tensão e a sua capital, Atenas, ardeu literalmente, tendo dezenas de edifícios ficado danificados ou ardido. Face à situação várias embaixadas emitiram comunicados a aconselharem os seus cidadãos a se protegerem e a afastarem-se dos epicentros dos confrontos.

Durante dois meses, Dezembro de 2008 e Janeiro de 2009, o país esteve imerso num clima de violência e de descontentamento social generalizado contra as autoridades policiais. Por exemplo, a BBC até usou a palavra “insurreição” para se referir aos protestos, deixando escapar as características dos mesmos. Não existiu um núcleo organizado com uma estratégia e orientação políticas como usualmente ocorre com as insurreições, mas um descontentamento generalizado e a participação de vários movimentos e grupos de forma desconcertada, mas com um inimigo comum. Os protestos expressaram a raiva contra as forças policiais e a sua constante brutalidade, mas também contra uma cultura autoritária ainda muito presente na sociedade grega.

Korkoneas foi condenado a prisão perpétua por homicídio premeditado e o seu parceiro, Saraliotis, a uma pena de dez anos por cumplicidade. Mesmo depois destas condenações o 6 de Dezembro passou a ser de memória pelo assassinato de Grigoropoulos e o passado domingo não foi excepção.

Nikos Romanos apelou a um Dezembro “cheio de sangue e fogo”. Polícia respondeu com seis mil agentes nas ruas

Os dias anteriores ao 6 de Dezembro deste ano ficaram marcados pela declaração escrita que Nikos Romanos, agora com 22 anos e actualmente a cumprir pena por tentativa de assalto à mão armada com o objectivo de financiar o grupo armado de cariz anarquista que fundou após a morte do seu amigo, apelando a que todos os anarquistas declarem guerra ao Estado e à classe média. Defendeu o despoletar de incêndios contra edifícios estatais, bancos e esquadras para se iniciar o processo e transformar Dezembro num “mês negro” e “cheio de sangue e fogo”.

Em reacção à declaração as forças de segurança destacaram cerca de seis mil agentes para a Praça Syntagma e para Exarcheia no dia 6 de Dezembro. É importante referir que a actuação das forças de segurança se alterou substancialmente desde que o Syriza formou governo pela primeira vez. Durante os anteriores governos as forças policiais limitavam fortemente o direito à manifestação obrigando os manifestantes a seguirem um percurso definido pelas autoridades. Fechavam várias ruas colocando as carrinhas policiais no meio da estrada, como se fosse uma barricada. Ao mesmo tempo, também se aproximavam frequentemente dos manifestantes, aumentando os ânimos e depois reprimindo-os severamente.

No entanto, actualmente as forças policiais já não fecham as ruas com as suas carrinhas, excepto em ocasiões excepcionais, e mantêm-se vigilantes durante as manifestações sem se aproximarem para não elevarem os ânimos. A polícia só intervém com acções repressivas após considerar que tem legitimidade para tal, como fez no passado 17 de Novembro, em Salónica, quando um grupo de anarquistas do secundário incendiou caixotes do lixo e atirou cocktails molotov contra um estádio de basquetebol durante uma hora. Esta nova postura das forças policiais não se deve a qualquer purga dos elementos fascistas nas suas fileiras, mas a um maior controlo político e imposição de directivas por parte do Governo Syriza-ANEL.

Turista português foi conduzido pelo GPS ao campo de batalha e acabou no hospital com ferimento ligeiro

Durante a madrugada do passado domingo um grupo de anarquistas atacou uma unidade policial perto de Exarcheia, atirando molotovs, pedras e very-lights. Durante os confrontos um turista português, que passava de carro na zona com a família, foi alvo de pedras enquanto conduzia, tendo ficado ferido na cabeça e sido levado para o hospital pelas autoridades. Em declarações à imprensa no local, o português afirmou que não fazia ideia do que se estava a passar e que foi surpreendido ao seguir as indicações do GPS do carro alugado para chegarem ao hotel onde estavam alojados.

Após o ataque de guerrilha urbana, o grupo recuou, mas uma hora depois retornou com reforços na ordem dos 300 anarquistas e os confrontos deflagraram novamente. 7 pessoas foram detidas. Os confrontos mantiveram-se confinados a Atenas durante a noite. Na manhã e tarde de 6 de Dezembro ocorreram manifestações em Atenas e Salónica, tendo na capital degenerado em confrontos com as forças de segurança até à madrugada de segunda-feira e na segunda maior cidade apenas algumas explosões de petardos no centro da cidade, em Kamara. Em Atenas foram detidos 13 manifestantes, em Salónica nenhum. Sete anos depois, o 6 de Dezembro continua a marcar o cena política e social grega e é bem provável que assim continue no futuro.

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